ESPETÁCULO "NÓ" ESTREIA EM SÃO PAULO E REFLETE SOBRE O LUTO, MEMÓRIA E RESISTÊNCIA DIANTE DA VIOLÊNCIA

Da Redação - editorias.obilhetedanoticia@gmail.com - @noticias.emcartaz

Como seguir vivendo quando a ausência ocupa todos os espaços da casa? Esta é a pergunta que atravessa “Nó”, novo espetáculo escrito por Gildon Oliveira e dirigido por Beatriz Barros, que estreia em São Paulo no dia 7 de julho, no espaço ºAndar, em Santa Cecília. Em temporada até 29 de julho, sempre às terças e quartas-feiras, a montagem acompanha a história de um casal que tenta sobreviver à dor provocada pela morte violenta do filho de treze anos.

Interpretados por Heloisa Jorge e Fábio Osório Monteiro, Célia e Sebastião vivem confinados em uma cozinha simples e organizada, ambiente que concentra as memórias da família e onde a ausência do filho Emanuel se torna uma presença constante. Entre lembranças afetuosas da infância do menino e os silêncios que atravessam o cotidiano, o espetáculo investiga as diferentes maneiras de lidar com o luto e os impactos da violência sobre os vínculos familiares.

O texto nasceu do desejo de abordar temas como racismo e violência sem recorrer a explicações diretas. “Queria tocar no assunto do racismo, mas não diretamente sobre ele. A gente sabe que uma criança morreu, mas não se sabe como ela morreu. O que eu queria muito abordar é o processo de luto, mas sob uma perspectiva que a gente não está acostumado: não discutindo o que aconteceu, mas como essas pessoas vão conseguir sobreviver a isso”, afirma o dramaturgo Gildon Oliveira.

Enquanto Célia transforma sua dor em ação pública, retornando diariamente ao local onde o filho foi assassinado para manter viva sua memória e reivindicar justiça, Sebastião se recolhe ao silêncio, à insônia e ao desejo de vingança. A tensão entre essas duas formas de enfrentamento revela as fissuras provocadas pela perda, mas também aponta para a possibilidade de reconstrução de laços afetivos e políticos. “O espetáculo é um encontro entre diferentes formas de elaboração do luto. As perspectivas de Célia e Sebastião dialogam, debatem, convergem, divergem, se abraçam e se chocam ao longo do tempo. Também nos interessava investigar essa tensão constante entre o que é privado e o que é público. Estamos dentro de uma casa marcada pela ausência de um filho, mas também diante de uma questão que atravessa toda a sociedade brasileira”, afirma a diretora Beatriz Barros.

A encenação investiga o tempo suspenso da perda, observando como os gestos cotidianos se transformam diante da ausência. Entre cafés compartilhados, cadeiras vazias e memórias insistentes, a casa deixa de ser apenas um espaço marcado pela falta para tornar-se território de resistência e reinvenção.

Ao longo da narrativa, o espetáculo entrelaça momentos de profundo pesar com cenas de ternura, humor e cumplicidade. A dança, a memória e o reencontro entre o casal surgem como formas possíveis de permanência da vida. Mais do que uma história sobre perda, “Nó” propõe uma reflexão sobre memória, justiça e a urgência de resistir ao esquecimento.

Para Heloisa Jorge, que interpreta Célia, um dos diferenciais da dramaturgia está justamente na delicadeza com que aborda questões frequentemente tratadas de forma explícita. “O luto e a perda do filho funcionam como um dispositivo para repensar a relação dessas duas pessoas. Não me interessava falar de um lugar panfletário e didático. O que mais me atrai nesse texto é a sutileza, a delicadeza e os silêncios que existem para além do que a gente já conhece sobre o luto”, destaca a atriz.

Já Fábio Osório Monteiro ressalta a escolha de não transformar os temas sociais em discurso. “A peça apresenta um contexto social, racial e de classe, mas sem elaborar textualmente sobre isso. Queríamos que as associações acontecessem depois da sessão, a partir do envolvimento do público com os personagens e com a narrativa”, afirma.

A montagem reúne uma equipe criativa de destaque. Além da direção de Beatriz Barros — indicada ao Prêmio Shell e diretora da adaptação teatral de O Avesso da Pele —, o espetáculo conta com direção musical de Muato, vencedor de dois Prêmios Shell de Música, cenário de Pedro Levorin, iluminação de Guilherme Soares e direção de movimento de Sol Menezzes.

O texto é assinado por Gildon Oliveira, dramaturgo e roteirista baiano vencedor do Prêmio Braskem de Teatro, cuja escrita aborda as relações humanas atravessadas por questões sociais e afetivas. “Eu construí personagens em que o mais importante era a humanidade e a complexidade. No processo de luto não existe certo ou errado. Essa dor ressalta ainda mais o caráter humano que eles têm”, resume o autor.

A realização é da produtora Zóio de Jabuticaba.

Mais Informações:

Espaço ºAndar: Rua Dr. Gabriel dos Santos, 88 - Santa Cecília

Datas: 07, 08, 14, 15, 21, 22, 28 e 29 de julho (terças e quartas de julho) Terças e quartas, às 20h

Duração: 65 min

Classificação indicativa: 14 anos

Ingressos: 

Bilheteria da unidade ou pelo site Sympla 

R$ 35 (meia-entrada) | R$ 50 (democrático) | R$ 70 (inteira)

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